Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

riscos_e_rabiscos

.

.

De(s) Privacidade Pessoal

 

 

 

                       

 

 

Saí com a minha mãe e no caminho ela vinha a comentar comigo o que se passa entre uma vizinha minha e o marido, os maus hábitos que se criaram ao longo de tantos anos de casamento e que lhe cerceiam os movimentos. E que ela agora reconhece que são uma invasão à sua privacidade e que nunca deveria ter permitido.

 

O marido sempre foi muito “comichoso”, sempre se incomodou com tudo e com nada. Sempre muito mesquinho em determinadas coisas e muito cioso de tudo. Principalmente no que dizia respeito a ela e à casa.

Ela trabalhava em casa como costureira, assim como a minha mãe. E eram daquelas que trabalhavam à bruta, tipo terem de fazer 30 pares de calças por dia, daí hoje estarem todas cheias de mazelas. Quantas vezes não ajudei eu a minha mãe nestas maratonas: ela a cozer e eu a orlar e a fazer bainhas à mão!

Mas vamos ao que interessa. O marido da minha vizinha tinha o bom hábito de a ajudar em casa, mas a idade veio e as mazelas também e foi deixando de dar uma mãozinha nas tarefas domésticas. Mas não perdeu o hábito de meter o bedelho em tudo.

 

Ambos reformam-se e aí chega a grande desgraça dela. Perdeu toda e qualquer liberdade e privacidade. Começa a ter o controlo de todos os seus passos. Se vai à rua, ele tem de saber onde, porquê vai e quanto tempo demora. Se demora  mais um pouco porque encontrou alguém ou teve de ir a outro lado porque ali não encontrou o que precisava. Ao chegar a casa, vai ter de arranjar um rol de explicações.

 

Se formos a casa deles fazer uma visita, não há privacidade porque ele também quer participar da conversa e, pior, monopolizá-la com a descrição das suas maleitas. É claro que ele tem todo o direito de participar na tertúlia mas poderia ter a sensibilidade (que poucos homens têm) de perceber que há coisas que são conversas só entre mulheres. Os homens por vezes não aceitam e não compreendem que há coisas estritamente femininas e que são faladas só entre nós. E não tem a ver com segredos ou não querer partilhar com eles. É mesmo assim, faz parte da nossa condição feminina. Tal como se passa o mesmo com eles.

 

Depois surgiu a mania terrível de lhe sacar a mala e revistá-la e revira-la de uma ponta à outra. E porque tens isto na mala? E este papel é de quê? E pra que queres isto aqui? Porque tens este dinheiro aqui escondido? Blá blá blá!

E o mesmo se passa com a carteira. Ah e tem de dar conta de todos os cêntimos que gasta. A pobre mulher tem alturas que está completamente desnorteada com tanto controlo. É que este tipo de coisas arrasa mesmo connosco. É a pressão psicológica, o “medo”, o saber que não temos privacidade.

Acreditam que muitas vezes ela quer falar com a filha determinados assunto e não quer que ele oiça, por isso vai para casa da minha mãe falar?

 

Ela hoje está arrependidíssima de ter permitido que isto acontecesse. E a filha e as netas zangam-se com ela por permitir que isto aconteça. Mas eu acho que ela desistiu. Há uns tempos atrás quando não estava tão doente, até equacionou o divórcio. Mas já era demasiado “velha”.

 

Há coisas que eu não compreendo e estas são algumas delas. A minha mãe fica chocadíssima com a situação da amiga. Na minha casa nunca ninguém tocou nas coisas dos outros, sempre respeitámos o limite e a privacidade dos outros.

Eu sou incapaz de tocar ou mexer nas coisas de alguém sem autorização. Não faz parte da minha natureza. E gosto que façam o mesmo comigo.

 

Assim como a minha mãe, tenho muita pena da minha vizinha. Mas não pensem que ele é má pessoa, não. Simplesmente tem este feitio e devia ter sido “educado” de outra maneira. Vá lá que se ela for ao café comigo ou com a minha mãe, não leva descasca…